domingo, 20 de dezembro de 2009

300 m/s

Acordou como quem acorda todos os dias. Digo isso porque, de fato, ele acorda todos os dias. Levantou como quem se levanta todos os dias. Digo isso porque, de fato, ele se levanta todos os dias. E assim, passo a passo, foi cumprindo os rituais diários.

Ficou faltando apenas uma coisa, quando já se dava o fim da tarde. Faltou a ligação pela qual tanto espera todos os dias. A ligação até vem. A pessoa com quem queria manter contato faz contato. Mas não é, nem de perto, suficiente.

Ouvir sua voz é pouco. A ligação, que não mais vem, não é uma ligação de pura e simplesmente voz e fatos. É a chamada da libertação! (ó, exagero bobo). É a chamada para o seu lado. É quando os dias começam a fazer sentido, porque deixa de ser apenas uma sucessão de fatos sem-graça, quase que desagradáveis, para tomar o colorido usual. Aquele colorido roxo-azulado de que tanto gosta.

Nesses últimos dias, nos quais a ligação não mais veio. Vive uma sucessão de fatos. Tenta exercer controle sobre alguns, sem sucesso. Acaba caindo numa rotina concreta, totalmente sem-graça. Acaba rindo, se divertindo, chorando, odiando. Mas tudo superficialmente. Continua a sentir porque não há outra opção. Porque estar em piloto automático não significa estar desligado. Significa apenas não querer parar, como para agora, para pensar no que está acontecendo. Para constatar o óbvio: que está extremamente longe da pessoa de quem tanto ama. E que, apesar dos esforços de manterem algum contato, de estarem presentes um nos dias do outro, isso não é suficiente.

Não é suficiente para ele ver o rosto dela numa adorável foto. Não é suficiente que ele também esteja nessa foto. Também não o satisfaz vê-la como que num quadro de Picasso, numa imagem traduzida pela internet. Conversar com ela, apesar de aliviador, apenas alivia a dor, não a faz cessar.

Quer tê-la por perto. Sempre disse isso. Desde os primeiros dias juntos, expressou que era apenas esse o seu desejo. Podia abrir mão de muitas coisas, desde que ficasse por perto. E com o passar dos dias a proximidade com a qual estava satisfeito foi aumentando. A troca de olhares começou a parecer pouco. Sentarem-se próximos começou a ser insuficiente. Um abraço, apesar de ser o movimento mais adorável entre os dois, não mais o satisfazia quanto à proximidade.

Nessa batalha pela proximidade, descobriu que conseguiam ficar juntos o suficiente para que tivessem apenas uma sombra. Uma sombra disforme, é verdade. Mas, quando sentados àquele jardim, que tanto marcara os dois e que a chuva insistia em dizer que estaria proibido a eles por algum tempo, percebeu que formavam apenas uma sombra, entendera tudo.

O destino daquelas duas criaturas era ficar uma colada à outra, não importa de que maneira. Assim, numa conseqüência quase que lógica, afastá-los seria ir contra a real natureza das coisas. Não digo crime, pois são os homens quem os estabelece, e, assim sendo, não se pode considerar crime tudo aquilo que vai contra a natureza.

O homem tenta sempre ir contra a natureza. Principalmente quando não encontrara ainda seu estado de conformação com ela. Ou se conforma, e decide desistir de achar a harmonia, ou se conforma, e, tendo sua forma achado eco no mais próximo do que consegue da natureza, sossega, pois sabe que a sensação de paz do que precisa.

E é isso do que esse sujeito, que tenta passar por sua rotina da mesma forma de anteriormente, sente falta. Da paz que sente ao estar ao lado dela. Não encontra mais a vaga esperança da alegria.

Seus olhos azuis, impressos em papel de foto, não transmitem a mesma candura, nem a mesma penetrabilidade. Apertar suas bochechas em foto apenas estragaria a imagem, fiel, mas imperfeita, que pode carregar consigo.

No fim de mais um dia automático, ele apenas pede por clemência e paciência. Que 33 dias passem na velocidade de trovão. Que 300m/s seja rápido o suficiente.

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