Primeiramente, vale ressaltar: eu. ODEIO. cabelereiro. Ficar horas sem fazer nada, olhando para um espelho enquanto puxam o seu cabelo? Maraviiiiiiiiiilha... ¬¬''
O único problema é que, como portadora do segundo cromossomo X, de alguma forma a sociedade acha que, em eventos formais como formaturas, é necessário passar um estonteante total de DUAS HORAS E MEIA naquela joça, para me aprontar para uma única noite... Mas o que eu posso fazer? Sou só uma pobre vítima do sistema... *momento drama*
Antes de mais nada, uma breve descrição de um salão de beleza, através dos olhos (agora maquiados) de Luisa: um local barulhento, cheirando a química, cheio de pessoas correndo de um lado para o outro com mais aparelhos barulhentos e outros instrumentos que deixariam um inquisidor medieval babando, com um monte de mulheres sentadas, sendo passivamente torturadas enquanto folheiam revistas de fofoca velhas (para mim, a parte mais cruel de toda a tortura).
Tudo bem que eu gosto de me olhar no espelho e ver como fico diferente - bonita, até - mas, por Deus, DUAS HORAS E MEIA?
Sim, senhorito, pasme: duas horas e meia de arrancar pelezinha de unhas, puxar o cabelo, ficar sentada na cadeira ouvindo conversas fúteis ao meu redor e pensando nas mil coisas mais interessantes que eu poderia estar fazendo... Na ja, fazer o que: se não quero fazer feio na formatura, tenho que me adequar...
De uma forma ou de outra, geralmente minhas experiências cabelereirísticas são deveras curiosas: afinal, em um ambiente que me é tão estranho, quase alienígena, me sobra um bom tempinho para pensar... Ou seja, pirar horrores sobre as coisas.
A parte inicial é sempre gostosa - lavar o cabelo. Não só porque a água é quentinha e eu adoro que mexam no meu cabelo (quando não estão puxando ou colocando um spray meio fedido, é claro), mas também porque naquele salão tem um negócio de fazer uma massagem no couro cabeludo, na testa e no pescoço enquanto a gente lava o cabelo... Uma delícia. A única coisa bizarra é que, como eu fui fazer as unhas (tanto das mãos quanto dos pés), a manicure e a pedicure já vieram para começar. Depois que lavei o cabelo, começaram a enrolar partes dele para fazer aquele négócio no alto da cabeça. Então, vamos contar: tinha a cabelereira, uma assistente, a pedicure e a manicure mexendo em mim, e eu lá sentada, enquanto quatro pessoas "me serviam".
Sempre me senti um tanto quanto desconfortável com pessoas me "servindo" - desde porteiros até garçons em restaurantes, quando era tímida achava muito difícil lidar com eles porque eram, justamente PESSOAS! Tenho aquela dificuldade em objetificar, aquela mania minha de estender a mesma humanidade a todas as pessoas - desde a moça que limpava o banheiro do colégio até aquela figura importante que alguém me apresentava. Com o tempo e um pouco de desembaraço, conseguia cumprimentar e sorir para todas as pessoas, o que tira um pouco do meu desconforto, mas ainda sim... Me sinto realmente bizarra tendo quatro pessoas mexendo em mim.
Depois que tenho minhas mãos livres, então, pego o nosso amigo Boaventura, que eu tinha trazido, para ver se passava meu tempo de uma forma produtiva. Sentia como se eu tivesse trazido, sei lá, um ser alienígena para aquele lugar: no meio de conversas sobre cabelos, festas e vestidos, enquanto meu cabelo ficava absolutamente ridículo, em preparação para o penteado, e o expoente da leitura era encontrar uma revista de fofoca mais nova, lá estava eu com o "Discurso e o Poder". Não precisa nem dizer que as pessoas de lá também me olhavam como se eu fosse um alienígena, né?
Por fim, após tanto puxarem e passarem o secador, e umas duas pessoas pararem para admirarem como pode alguém ter um cabelo assim tão comprido, finalmente veio a parte que, embora eu não ache tão agradável, é a que eu mais gosto de olhar depois: a maquiagem.
Veja bem, quando é feita assim, desse jeito mais "profissional", a maquiagem é uma pintura de várias camadas, de várias sutilezas que transformam totalmente o contorno dos olhos, quando uma pincelada faz a diferença entre o bizarro e o maravilhoso. Sempre começa-se pelas cores mais claras, adicionando as outras, tirando excesso e tudo, mas a primeira impressão que se tem é de um borrão colorido e meio exagerado no seu rosto. Enquanto não está tudo pronto, os viajantes de primeira vez começam a ficar preocupados, se perguntando se não está muito forte, achando as cores muito espalhadas pelo olho e mil outras coisas que, da primeira vez, notei (e como a
primeira vez lá foi na minha própria formatura, eu estava bem mais nervosa com a idéia). Desta vez, mais tranquila, esperei aqueles últimos toques de preto, aqueles últimos detalhes que são tão cruciais - e, de fato, eu adorei. De alguma forma, a maquiagem acentua a curva para cima de meus olhos, o que torna meu olhar meio sarcástico também tão acentuado... É como afiar uma faca, que não perde suas características, mas fica até mais cortante. E afinal, para uma ocasião como a formatura do colégio onde passei pelos meus infernos pessoais, é até mesmo uma metáfora bem apropriada.
No final das contas, não consegui ler tudo o que eu queria por causa do barulho constante e dos sprays e coisas perto de meus olhos que atrapalhavam - mas tive um bom tempo para pensar o que eu queria, em pirar sobre como seria a formatura, em imaginar mil e uma coisas que poderiam e não acontecer, e, como sempre, aquela velha amiga saudade (mesmo com a certeza de que você não iria querer estar lá), como se fosse um porco-espinho gigante me abraçando constantemente, mas que resolvesse me apertar mais de vez em quando.
Fiquei bem bonita, no final das contas - mas, mesmo assim, duas horas e meia, pra ver um tanto de gente que me odeia... (uau, até rimou). Mas eu confesso que, na hora, não estava pensando tanto na possível hostilidade quanto agora, quando eu já passei por ela - mas enfim. Sem saber o que esperava, mas com o cabelo arrumado e olhos pintados, lá fui eu para casa, colocar o vestido e me arrumar para a festa...
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